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Dakar 2012: Carlos Sousa – será muito difícil repetir o 6º lugar de 2012

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Carlos Sousa será em 2013 o único piloto a defender as cores portuguesas nos automóveis no Rali Dakar, aumentando as suas responsabilidades. O piloto da Great Wall concedeu-nos uma entrevista, explicando o que representa ser piloto da marca chinesa, as dificuldades que espera na edição deste ano da competição, deixando escapar alguns planos para o futuro. 

SportMotores.com: O motor do Great Wall foi o calcanhar de Aquiles na edição de 2012. O que foi feito este ano para ultrapassar o problema?
Carlos Sousa: Vamos participar neste Dakar com o mesmo carro do ano passado, com a única diferença que em 2013 vou estar ao volante do Great Wall que foi conduzido em 2012 pelo Zhou Yong. Como a equipa está a pensar desenvolver um novo carro de raiz para o Dakar de 2014, não houve qualquer desenvolvimento de um ano para o outro. Apenas testámos em Marrocos algumas novas soluções em termos de suspensões. A única alteração de vulto diz respeito ao motor, que é agora de série, por força do novo regulamento do Dakar. Apesar de tudo, não perdemos muito em potência, porque compensamos com uma relação de caixa mais curta. Pelo contrário, e como pude comprovar em Marrocos no passado mês de outubro, fomos altamente penalizados em termos de velocidade pura. Basta dizer que perdemos entre 15 a 20 km/h de velocidade de ponta. A parte positiva é que este motor, por ser derivado de série, permite-nos rodar com temperaturas um pouco mais baixas àquelas verificadas no ano passado, quando fomos obrigados a parar várias vezes em plena especial para baixar a temperatura do motor. Ou seja, nada foi feito para corrigir especificamente este problema. Apenas o minimizamos com a passagem para o motor de série.

SportMotores.com: Ao contrário de outros construtores a Great Wall não parece muito interessada em participar em provas internacionais com excepção do Dakar. Julga que este será um handicap para a equipa?
Carlos Sousa: É impossível comparar a Great Wall às outras grandes equipas que disputam o Dakar há vários anos. Apesar de ser uma formação oficial, que é apoiada diretamente por um construtor, por sinal, um dos maiores da China, o caminho está a ser feito muito lentamente e sem grandes pressas. Para já, perceberam que o Dakar é uma poderosa ferramenta de marketing e que a aposta na competição pode representar um retorno directo e efectivo na venda dos seus produtos, como já se viu nos mercados sul-americanos onde a Great Wall está representada, nomeadamente no Chile. Contudo, ainda há uma certa resistência por parte dos responsáveis da marca em dar o passo seguinte. Talvez o salto tenha sido demasiado grande em 2012, porque ninguém estava minimamente à espera que a equipa pudesse andar regularmente no top-10 e terminar o Dakar do ano passado no 6º lugar final. Mas respondendo diretamente à pergunta, claro que era importante a equipa ter um programa de treinos e provas mais completo. Naturalmente, ninguém poderá aspirar a lutar por um pódio depois de estar parado praticamente o ano inteiro e realizar apenas uma sessão de testes antes de cada Dakar.

SportMotores.com: Como tem sido a sua integração numa equipa francesa com administração chinesa? Sente grandes diferenças em comparação a projectos anteriores em que esteve envolvido (pe. Volkswagen)?
Carlos Sousa: Tenho sido muito bem tratado por todos os responsáveis da equipa. Conheço o Philippe Gache há vários anos e sabia que nos iríamos entender facilmente. Naturalmente que partia mais apreensivo em relação à parte chinesa, até pela dificuldade de comunicação. Há de facto um choque de culturas. Eles têm um ritmo muito diferente de nós europeus e realmente demoram um pouco mais do que nós a decidir qualquer coisa. São talvez menos emotivos e impulsivos. E estão ainda a perceber como podem vir a beneficiar do que impacto que tem o Dakar a nível mundial. Desse prisma, é impossível fazer qualquer tipo de comparação com equipas onde já estive no passado, seja na Mitsubishi ou na Volkswagen. 

SportMotores.com: O seu companheiro de equipa, o Zhou Yong, é um desconhecido para nós portugueses, mas é muito bem-amado na China. Sente que da parte da equipa há um maior apoio em relação a si?
Carlos Sousa: O Zhou julgo que vai já para o seu quinto Dakar. Chegamos a ser colegas de equipa no Team Dessoude, quando ele se estreou no Dakar, conseguindo na altura um 18º lugar. É um piloto rápido, mas que lhe faltava ainda alguma experiência. Não teve muita sorte no último Dakar e este ano sei que existe muita vontade dentro da equipa que ele se possa aproximar mais do top-10. É um piloto já muito popular na China, um país que apenas começou a despertar a sério para o Dakar no ano passado.

SportMotores.com: Este ano terá ao teu lado o Miguel Ramalho. Que vantagens traz o Miguel em relação ao navegador francês que tinha o ano passado?
Carlos Sousa: Após o último Dakar, manifestei desde logo à equipa a minha vontade em participar com um navegador português no ano seguinte. Só não o fiz logo em 2012 porque achei que era cedo para impor alguma coisa. Conheço o Miguel há já muitos anos, chegamos inclusivamente a ser colegas de equipa na Mitsubishi. É um navegador muitíssimo experiente e que sempre respeitei imenso. Enfim, com o fim do seu projeto no WRC, a oportunidade surgiu e para mim é um orgulho enorme poder regressar ao Dakar integrado numa dupla totalmente nacional. Sobretudo numa prova tão longa e exigente como o Dakar, é bom termos alguém ao nosso lado que fale a mesma língua. E às vezes isso permite-nos ouvir a nota mais em cima e travar um pouco mais tarde.

SportMotores.com: Nesta edição do Dakar será o único piloto português à partida. Num momento tão sensível para os portugueses, onde o orgulho nacional está evidentemente ferido devido à crise que nos atravessa, sente pressão do público português (e não só) para obter um resultado de relevo?
Carlos Sousa: Quando arranco para um Dakar, procuro sempre fazer o meu melhor possível. Não poderia ser de outra maneira. Temos é que saber explicar que nem sempre podemos ter à partida objectivos tão ambiciosos como todos gostávamos. Já fui para um Dakar prometendo que ia lutar por top-5 e por um pódio. Às vezes conseguimos e outras não. Mas este ano temos de ser realistas e perceber que será muito difícil repetirmos o 6º lugar do ano passado.

SportMotores.com: Quais serão os principais desafios da edição deste ano do Dakar?
Carlos Sousa: O Dakar é sempre uma prova duríssima, mas a sua dificuldade tem de ser medida a cada ano pelo número de candidatos aos lugares cimeiros. E nesse particular, acho que esta vai ser uma edição muito aberta, com vários pilotos dos buggys a poderem legitimamente aspirar a uma posição cimeira e, quem sabem até a quebrarem a habitual hegemonia dos 4×4 das equipas de fábrica. Em termos de percurso, vamos ter um início um pouco diferente do que é habitual, já que vamos ter dunas e muita areia logo a abrir. Pela amostra do ano passado, é possível que esta primeira semana faça já muitos estragos entre o pelotão e possa já definir um grupo restrito de potenciais candidatos à vitória.

SportMotores.com: Quais são os objectivos para a prova deste ano?
Carlos Sousa: O primeiro objetivo é sempre chegar ao fim e tentar melhorar a classificação do ano anterior. Mas honestamente penso que será muito difícil repetir o 6º lugar de há um ano. Sem conseguirmos lutar de igual para igual com os nossos principais adversários, vamos procurar ser o mais regulares possível e, claro, tentar pelo menos terminar dentro do top-10.

Texto e fotos: Sportmotores.com

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